quarta-feira, 10 de agosto de 2016

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“O maior sonho dele era ser polícia, mas foi morto a tiro”•|•Noticias•|•• Eddy Musik Portal da Actualidade ••|••


A família de Rufino António, o adolescente de 14 anos morto por supostos militares do Posto Comando Unificado (PCU) durante a onda de demolições na localidade de Walale, no Zango II, está em choque e sem condições financeiras para realizar o velório do menino. Desde o dia da sua morte, no sábado passado, dia 6, os parentes alegam não terem recebido nenhuma explicação das autoridades.
Rede Angola esteve esta terça-feira no bairro onde Rufino vivia com os pais que, desempregados, garantem que nem dinheiro para comprar um caixão têm.
As palavras não saíram com facilidade, entre dor e lágrimas, os pais de Rufino falaram sobretudo dos sonhos do filho: estudar e ser polícia.
“Não trabalho e nem sei de onde tirar dinheiro para enterrar o meu filho”, lamentou Marcelino Rufino António. Aos 14 anos, apesar de gostar de futebol, Rufino tinha o sonho de ser um efectivo da Polícia Nacional, segundo o pai.
“Ele me falava ‘papá, tens que pagar os meus estudos porque quero ser alguém formado para poder ajudar a família’. E o maior sonho dele era ser polícia, mas foi morto a tiro”, lembrou.
Adolescente morto durante as demolições no Zango (6)
Marcelino Rufino António, pai do adolescente.

Vizinhos que testemunharam a morte do rapaz descrevem que o assassinato ocorreu quando os populares protestavam contra os militares que acompanhavam os tractores que estavam a demolir as casas. A casa onde vivia o menino é de chapa e não foi afectada – as demolições são por fases.
“Quando acabaram de partir do outro lado, eles passaram por cá e dirigiram-se ao outro bairro chamado Nguimbi. E nós fomos lá saber por que é que estavam a partir as casas. Assim que chegamos, encontramos outros vizinhos a reclamar e daí eles começaram a disparar. Os tiros não eram feitos no ar. Assim que continuaram a dar tiros, enquanto fugíamos, uma das balas atingiu na nunca do miúdo e eles retiraram-se do local.”, disse Monteiro, um dos moradores que diz ser irmão de igreja do adolescente.
Assim como Monteiro, outros habitantes acusam os militares de terem disparado à queima-roupa. De acordo com os residentes do Walale e Nguimbi, para além de Rufino, que perdeu a vida enquanto tentava fugir do terror que estava a ser semeado por supostos elementos da Forças Armadas Angolanas (FAA), um outro cidadão identificado apenas por Feijó também foi baleado num dos braços.
O corpo do menino terá ficado no local até às 20 horas. Os militares terão agredido também um oficial da policia que tentava apaziguar a situação depois da morte do rapaz.
Adolescente morto durante as demolições no Zango (2)
A comunidade está chocada com a morte do rapaz.
“Ficamos no local a vigiar o cadáver, depois chegou a patrulha da policia que nos mandou aguardar pelo carro do Serviço de Investigação Criminal (SIC) que tem estado a remover os corpos. Passado algum tempo, os militares voltaram ao local, bateram até o comandante da policia que estava no local, dispararam contra o braço do jovem Feijó e lhe receberam Kz 40 mil, e pegaram no corpo do miúdo, deitaram-no carro e foram-se embora”, explicou.
Os moradores afirmam que foram cerca de seis militares que protagonizaram a cena, não estavam identificados e os carros de marca Land Cruiser que dirigiam não tinham matriculas.


As demolições vão continuar
O primeiro acto de demolição na área, refere a SOS Habitat, foi no dia 30 de Julho na localidade do Zango III. Na passada quarta-feira, os supostos efectivos do PCU iniciaram as demolições no bairro Walale, que culminou com a morte do rapaz no sábado.
Os populares só foram notificados no domingo, 7 de Julho, um dia depois da morte do adolescente Rufino António, de 14 anos, que frequentava a 4ª classe. Segundo a notificação da Sociedade de Desenvolvimento da Zona Económica Especial Luanda-Bengo a que o RA teve acesso, os habitantes dos bairros Walale devem abandonar a zona do bairro num prazo de 13 dias.
“Considerando que o espaço em que edificou a sua residência constitui propriedade privada da Sociedade de Desenvolvimento da Zona Económica Especial  Luanda-Bengo ZEE-EP, vimos por esta via notifica-lo, para o prazo de máximo e improrrogável de 15 dias, promova a demolição voluntária benfeitoria ou obra realizada no referido espaço. Terminado o prazo acima estipulado procederemos a demolição compulsiva”, lê-se no documento assinado no dia sete deste mês por um primeiro sargento não identificável . Veja aqui o documento.
pisos das bota , prenças dos militares (2)
Marcas das botas dos militares ainda estão no local.
Os habitantes, por sua vez, alegam que o espaço lhes pertence há longos anos, pois eram zonas de cultivo.
Uma das moradoras, que negou ser identificada, contou que algumas pessoas tiveram que pagar aos militares para não perderem as casas. A senhora de 35 anos disse que a sua mãe pagou Kz 5 000. Os soldados intimidaram a moradora, afirmando que esta, se não tinha dinheiro, deveria então pagar-lhes com sexo.
“Como não tinha dinheiro eles disseram que eu teria que manter relações sexuais com os dois para salvar a minha casa. Neguei e eles aceitaram e depois pediram uma caneca de quissangua”, denunciou a moradora.
No local, o Rede Angola viu que os populares ficaram sem acesso a água, as forças militares cavaram buracos enormes para impossibilitar a entrada das motorizadas que abastecem os dois bairros.
Zango-Walale
Sinais dos disparos estão marcados nas paredes

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